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Certa vez me vi acima delas.
Descobri que nada têm de algodão,
nem são doces,
mas são lindas;
E nos permitem refletir,
assim como refletem
a luz brilhante do sol nesta manhã.
Da mesma forma se tornam negras à noite.
Escondem a lua.
Às vezes trazem chuva.
Podem existir por vários motivos mais importantes,
mas, sem dúvida, estão aí para o nosso deleite.


Outro dia morreu um cara.

Sei, hoje também, e todos os dias parece que morre alguém.

Mas nasce também.

O cara que morreu, morreu no mesmo dia que um outro, famoso.

A mídia veiculou tudo. E todos queriam lhe dar o último adeus. Sim, ao famoso.

A mim parece que adeus é coisa ligada à último mesmo.

Assim ouvi. Só estou a repetir.

Tudo é meio que uma repetição. Não me lembro de ter criado nada.

Só repito. Feito papagaio.

Vai pensando, vai! Você também.

E quando a gente pensa que inventa, na verdade só reorganiza o que já está aí.

Escreve da esquerda pra direita, aí, pra inventar escreve da direita pra esquerda, de cima pra baixo... só que diz sempre a mesma coisa.

Sei lá. O cara era famoso, estourou na mídia e agora, uns dias depois ninguém mais fala.

Nunca vi o passado ficar tão passado tão rápido como agora.

A laranja parece mofar antes de cair do pé.

É tanta informação, tão rápido, que nossos processadores, ops! neurônios, parecem não dar conta.

Então, como as coisas voam, perdem valor também. Não que os aviões não valham nada. Acho que são até bem carinhos.

Mas a abundância faz com que o valor que damos às coisas diminua. Muitas vezes não percebemos seu valor real, absoluto.

Sei lá! Coisas pra se pensar.

Pensei.

...dias





















Tem dias que a gente acorda
meio folha soprada.
Aquelas que ninguém percebe.
Apenas mais um, ou uma,
lançada ao ar.
Nesses dias frios,
outono,
é assim que o dia amanhece.
Falta um galho onde se prender,
falta algum alimento
que torne a clorofilar a alma.
Nesses dias assim, gelados,
em que sopra o vento
empurrando tudo de um lado
para o outro percebo-me
empurrado também.
Dá vontade de sair por aí,
dá vontade de deixar o acaso
fazer seu papel de causador.
Amanhã... Mais um dia...
...Frio!















Hoje tive desejo de ser louco.
É!
Vontade de sair à esmo,
correr pelo asfalto molhado,
correr pelo campo deserto,
andar pelas ruas estreitas,
voar pelo ar ...gelado.

Hoje tive vontade de sair na chuva.
Chuva fria.

Quis ver o mar.
Quis navegar teus sonhos.
Fiquei nos meus,
por não saber ao certo quais os teus.

Hoje nem me deitei.
Sonhei acordado,
meio atordoado talvez.

Hoje as gotas da chuva caíram
sobre as folhas verdes do jardim
e deslizavam levando consigo o pó.

Hoje a água correu sobre o calçamento
e levou...
Levou idéias,
trouxe desejos,
inundou vontades.

Hoje,
eu sei,
será o ontem do amanhã.

O que farei com isso?

Hoje guardo.
Amanhã, vivo, ou, viverei.

Não sei.

Acho que vivo hoje o amanhã
antes que ele chegue.

Cidade

"...ô cidade, quem foi que fez você tão cinza assim?
não teve dó de ver-te adoecer..."

Cidades são edificadas por pessoas.
Existem não por obra do acaso,
mas porque foram criadas.
Será que a cidade como é,
as cidades como são,
respondem,
ou correspondem,
às expectativas que temos?
Cidades não são prédios, são pessoas.
A cidade está dentro de cada um.
Se a cidade é cinzenta e fria,
apenas o é por reflexão daquilo
que absorve, e externa, daqueles que a habitam.

"...como estás triste,
as cores que te faltam, faltam em mim também,
pois perdi todo meu verde igul a a ti..."

A cidade perde seus verdes, seus azuis e lilazes,
veste-se da mortalha fria do cimento armado,
banha-se no rubro descaso das esquinas,
onde notícias impressas entopem bueiros escancarados,
e necessidades descartáveis prostram-se
diante postes e semáforos intermitentes.

"...sob nuvens,
teus edifícios olham mudos,
a esperrança e o futuro,
daqueles que te clamam e choram..."

Nas sarjetas, guias, cantos,
carvão impregnado no granito frio,
onde cobertores contem o pouco calor
que resiste à frieza da noite... longa...
...na qual o brilho da lua, quando há,
é quase nada,
e ainda assim tudo,
a refletir brilho nos olhos que marejam
na busca por atenção.















doces momentos no jardim

Naquela tarde de sábado,
sob o sol da primavera,
embalado pelo canto dos pássaros
que brindavam os olhos
com suas brincadeiras
entre as palmeiras do jardim,
deitado na rede de algodão, adormeci...

Enquanto isso, ela,
amante das flores,
de tantas cores,
perfumes, odores,
colhia das flores
a doçura dos sabores...

Podia ouví-la,
ainda que o sono me atordoasse,
e ao perceber o seu silêncio,
entorpecido pelo sono preguiçoso,
naquele momento tão gostoso
abri os olhos ligeiramente
e a vi a observar-me s e d e n t a...

Foi quando lançou-se
de encontro à minha boca,
talvez,
encantada com a doçura de meus lábios
e...

a boca?
inchada,

a ferroada?
dolorosa,

abelhinha sem vergonha!


Josué Gomes















Há uma pedra.

Não há caminho que me leve a ela.
Gigante rochedo de granito temperado de oceano
a pedra sempre lá.


Aprisco de fantasmas daqueles que a fizeram sua morada.

E o mar!? sempre a açoitar!

Revolto recôndito anil,
lar da sereia,
redil,
com o vento a pentear os cabelos

e tremular as vestes daquele que o horizonte mira
no anseio de apascentar a ira.


Fragatas em silencioso balé,
gaivotas a desafiarem a maré,
o tempo que já não existe
e o Sol que a tudo assiste...
e insiste...
e persiste ...
a queimar...

Onde?
Como chego lá?

Josué Gomes