"...ô cidade, quem foi que fez você tão cinza assim?
não teve dó de ver-te adoecer..."
Cidades são edificadas por pessoas.
Existem não por obra do acaso,
mas porque foram criadas.
Será que a cidade como é,
as cidades como são,
respondem,
ou correspondem,
às expectativas que temos?
Cidades não são prédios, são pessoas.
A cidade está dentro de cada um.
Se a cidade é cinzenta e fria,
apenas o é por reflexão daquilo
que absorve, e externa, daqueles que a habitam.
"...como estás triste,
as cores que te faltam, faltam em mim também,
pois perdi todo meu verde igul a a ti..."
A cidade perde seus verdes, seus azuis e lilazes,
veste-se da mortalha fria do cimento armado,
banha-se no rubro descaso das esquinas,
onde notícias impressas entopem bueiros escancarados,
e necessidades descartáveis prostram-se
diante postes e semáforos intermitentes.
"...sob nuvens,
teus edifícios olham mudos,
a esperrança e o futuro,
daqueles que te clamam e choram..."
Nas sarjetas, guias, cantos,
carvão impregnado no granito frio,
onde cobertores contem o pouco calor
que resiste à frieza da noite... longa...
...na qual o brilho da lua, quando há,
é quase nada,
e ainda assim tudo,
a refletir brilho nos olhos que marejam
na busca por atenção.

doces momentos no jardim
Naquela tarde de sábado,
sob o sol da primavera,
embalado pelo canto dos pássaros
que brindavam os olhos
com suas brincadeiras
entre as palmeiras do jardim,
deitado na rede de algodão, adormeci...
Enquanto isso, ela,
amante das flores,
de tantas cores,
perfumes, odores,
colhia das flores
a doçura dos sabores...
Podia ouví-la,
ainda que o sono me atordoasse,
e ao perceber o seu silêncio,
entorpecido pelo sono preguiçoso,
naquele momento tão gostoso
abri os olhos ligeiramente
e a vi a observar-me s e d e n t a...
Foi quando lançou-se
de encontro à minha boca,
talvez,
encantada com a doçura de meus lábios
e...
a boca?
inchada,
a ferroada?
dolorosa,
abelhinha sem vergonha!
Josué Gomes

Há uma pedra.
Não há caminho que me leve a ela.
Gigante rochedo de granito temperado de oceano
a pedra sempre lá.
Aprisco de fantasmas daqueles que a fizeram sua morada.
E o mar!? sempre a açoitar!
Revolto recôndito anil,
lar da sereia,
redil,
com o vento a pentear os cabelos
e tremular as vestes daquele que o horizonte mira
no anseio de apascentar a ira.
Fragatas em silencioso balé,
gaivotas a desafiarem a maré,
o tempo que já não existe
e o Sol que a tudo assiste...
e insiste...
e persiste ...
a queimar...
Onde?
Como chego lá?
Josué Gomes
Assinar:
Postagens (Atom)